28/04/2026 15h49
Foto: Divulgação
A Caatinga concentra 62% das áreas de usinas fotovoltaicas instaladas no Brasil, com 21,8 mil hectares ocupados por painéis solares em 2024 — e perdeu, no mesmo período de expansão renovável, 9,25 milhões de hectares de cobertura natural desde 1985, o equivalente a 14% de sua extensão original. Os dados são da Coleção 10 do MapBiomas, levantamento publicado em setembro de 2025 com cobertura do período 1985–2024.
O bioma, único 100% brasileiro, ocupa 862 mil km² em 1.130 municípios de nove estados e abriga hoje 59% de vegetação nativa — proporção que cai para 24% em Sergipe e 27% em Alagoas. Celebrado neste 28 de abril, o Dia Nacional da Caatinga, instituído em 2003, marca a data com o bioma registrando expansão simultânea de usinas solares e de iniciativas federais de restauração, bioeconomia e crédito climático.
A expansão da agropecuária foi o principal vetor de perda. A área antrópica cresceu 39% entre 1985 e 2024, somando 9,2 milhões de hectares. A pastagem responde por 24,7% do bioma e expandiu 106% no período. A agricultura foi o uso que mais cresceu proporcionalmente: alta de 1.636%, com predominância de lavouras temporárias (1,4 milhão de hectares).
A formação savânica foi a mais afetada, perdendo 8,9 milhões de hectares e concentrando 78% das queimadas anuais. Nos últimos 40 anos, 11,4 milhões de hectares da Caatinga foram queimados — área superior ao território de Portugal. “Essa transição, embora contribua para a matriz energética limpa do país, levanta questões sobre esse uso da terra recente no país e a conservação da vegetação nativa na Caatinga”, afirma Washington Rocha, coordenador da equipe da Caatinga do MapBiomas.
Caatinga é o bioma mais eficiente no sequestro de carbono
Pesquisas do Instituto Nacional do Semiárido (INSA) e do Observatório da Caatinga e Desertificação (OCA) revelaram que as florestas do semiárido retiram da atmosfera até 7 toneladas de CO2 por hectare por ano, consolidando a Caatinga como o bioma brasileiro mais eficiente no sequestro de carbono, à frente da Mata Atlântica e da Amazônia.
Mesmo nas regiões mais áridas, o potencial varia entre 1,5 e 3 toneladas anuais por hectare. Os dados foram coletados em torres instaladas na Estação Experimental Ignácio Hernán Salcedo, em Campina Grande (PB).
“Quando a vegetação está preservada, o carbono fica armazenado nas plantas e no solo, mas, quando o desmatamento e o manejo inadequado dos recursos naturais entram em cena, estamos diante de problemas como a perda da biodiversidade, a degradação do solo, que leva à desertificação, e o agravamento do efeito estufa”, afirmou Aldrin Pérez Marin, pesquisador do INSA e coordenador do OCA. O pesquisador defende a conversão das toneladas de CO2 retidas pelo bioma em créditos de carbono como nova fonte de renda para agricultores e vetor de justiça socioambiental.
COP30 e o Fundo da Caatinga
Na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), realizada em Belém (PA) em novembro de 2025, a Caatinga ganhou espaço inédito nas discussões climáticas globais. O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, apresentou à ministra Marina Silva a proposta do Fundo da Caatinga, inspirado no Fundo Amazônia, para financiar manejo sustentável, recuperação de áreas degradadas, energias renováveis e conservação da biodiversidade.
O Ceará, representado pelo governador Elmano de Freitas, conduziu o painel “Do Nordeste para o Mundo: o papel da Caatinga e do Hidrogênio Verde para a Transição Energética Justa” no Pavilhão Brasil. “Não se trata apenas da Amazônia, mas também da Caatinga e do Sertão. O Nordeste precisa estar incluído nessa discussão sobre adaptação e justiça climática”, declarou Jerônimo Rodrigues na abertura dos Pavilhões Brasil.
Restauração, bioeconomia e crédito climático
O Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) Verde destinou R$ 100 milhões em 2025 à recuperação e conservação da Caatinga, três vezes o volume de 2024. O Conselho Deliberativo da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) aprovou ainda a inclusão do tema “Recaatingamento” nas diretrizes do fundo, ampliando o peso da recuperação ambiental na orientação técnica do crédito regional.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Banco do Nordeste lançaram em 2024 a iniciativa Caatinga Viva, com R$ 8,8 milhões para até quatro projetos de restauração ecológica em unidades de conservação do bioma, operados com apoio do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) em Alagoas, Bahia, Ceará, Minas Gerais, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe.
Na bioeconomia, a Sudene desenvolve o Impacta Bioeconomia com a Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), iniciativa que serviu de modelo para a criação do Centro de Bionegócios e Estudos da Caatinga, contemplado com R$ 14,9 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e a ser instalado na UFPE com foco em biomoléculas, bioinsumos e compostos bioativos de espécies nativas.
A autarquia também estrutura o Inova Palma, com cinco frentes de pesquisa e fomento à palma forrageira no Semiárido. Em Alagoas, o Irriga Alagoas prevê R$ 26 milhões em kits de irrigação para pequenos produtores inseridos no recorte do bioma, com entregas já realizadas em Santana do Ipanema e São José da Tapera.