06/03/2026 11h30
Foto: Divulgação
A guerra entre os Estados Unidos, Israel e Irã começa a afetar o transporte marítimo de contêineres, com impactos visíveis na segurança da navegação, nas decisões operacionais das empresas de transporte e no mercado de seguros marítimos. Embora, por ora, as interrupções estejam concentradas principalmente na região, analistas alertam que elas podem se espalhar caso o conflito se prolongue.
Uma das principais áreas de preocupação é o Estreito de Ormuz, uma passagem estratégica para o comércio marítimo global. De acordo com dados compilados pela Bloomberg, o tráfego por essa hidrovia diminuiu drasticamente desde o início das hostilidades. Na terça-feira, apenas dois navios graneleiros e um pequeno navio porta-contêineres foram vistos atravessando o estreito, todos saindo do Golfo Pérsico e nenhum entrando.
O monitoramento do tráfego marítimo também se tornou mais complexo devido à interferência eletrônica. De fato, "a área mergulhou numa espécie de névoa digital", resultado da interferência de sinal e da desativação de transponders de posicionamento, o que dificulta o monitoramento preciso da rota dos navios.
A pressão operacional é agravada pela deterioração das condições de segurança para as tripulações. Um navio porta-contêineres com capacidade aproximada de 1.700 TEUs, o “Safeen Prestige” (na foto), foi atacado durante a travessia do estreito, causando um incêndio na casa de máquinas e forçando a tripulação a evacuar. O grupo de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido informou que a embarcação foi atingida por “um projétil desconhecido logo acima da linha de água”, embora não tenham sido relatados feridos ou impactos ambientais.
O incidente soma-se a uma série de ataques recentes a navios na região. O analista da indústria marítima Lars Jensen destaca que "um petroleiro foi atingido por um drone kamikaze, elevando o número de embarcações atingidas até o momento para seis petroleiros e um navio porta-contentores".
Impacto nas operações
Judah Levine, chefe de pesquisa da Freightos, observou que os ataques e represálias na região estão causando "grandes interrupções logísticas" que podem se espalhar se o conflito continuar.
Entre os primeiros sinais, destacou-se a suspensão temporária das operações no porto de Jebel Ali, em Dubai, o maior terminal de contêineres do Oriente Médio, após um projétil ter provocado um incêndio no fim de semana. Embora o porto tenha retomado as operações na segunda-feira, a situação gerou incerteza para o comércio regional.
Em resposta aos riscos, diversas companhias de navegação começaram a modificar suas operações. Segundo Levine, “com o estreito fechado e os riscos de segurança na região, as principais operadoras estão desviando navios, cancelando itinerários e suspendendo novas reservas”.
Essas decisões já estão causando atrasos para cargas destinadas ao Golfo ou com origem na região. "Os cancelamentos significam que os contêineres destinados à região do Golfo já estão começando a se acumular e ameaçam causar congestionamento nos terminais de contêineres na Índia", explicou ele.
Além disso, alguns contêineres já em trânsito estão sendo redirecionados para outros centros de transbordo na Ásia. O analista indicou que a maior parte do volume provavelmente será descarregada em importantes centros do Extremo Oriente, como Singapura, Malásia ou Sri Lanka.
No entanto, Levine observou que o Estreito de Ormuz movimenta apenas “cerca de 2% ou 3% do volume global de contêineres”, mas alertou que “quanto mais tempo o conflito continuar, mais disruptivo ele será e mais amplamente será sentido”.
Impacto no mercado de seguros
Inicialmente, foi noticiado que algumas coberturas de seguro de guerra estavam sendo canceladas para trânsitos pelo Estreito de Ormuz, causando incerteza entre os armadores. No entanto, associações do setor de seguros indicam que o seguro continua disponível, embora a custos mais elevados.
A diretora executiva da Lloyd's Market Association, Sheila Cameron, declarou: "Entendemos que estão sendo feitas ofertas de seguro para embarcações que pretendem transitar pelo Estreito de Ormuz". Ela acrescentou que essa cobertura "continuará disponível por meio do Mercado de Seguros de Guerra Marítima de Londres quando os armadores considerarem seguro para suas embarcações e tripulações".
Ainda assim, vários armadores salientaram que o principal obstáculo não é a disponibilidade de seguros, mas sim o risco para as tripulações. Três armadores consultados indicaram que não estão dispostos a atravessar o estreito “no contexto atual”, independentemente da cobertura disponível.
Tarifas de frete
Segundo o Índice Mundial de Contêineres da Drewry, o WCI aumentou 3%, para US$ 1.958 por contêiner de 40 pés, impulsionado principalmente por tarifas mais altas nas rotas transpacíficas.
Embora esse movimento não seja atribuível exclusivamente ao conflito no Oriente Médio, o setor está acompanhando de perto a evolução da crise, ciente de que uma prolongação das hostilidades poderia gerar interrupções mais profundas nas cadeias de suprimentos globais.
Fonte: Mundo Marítimo