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Sustentabilidade

Hyundai estreia caminhões a hidrogênio na América do Sul

Projeto no Uruguai combina produção local de H₂, infraestrutura dedicada e uso industrial

31/03/2026 09h44

Foto: Hyundai - Divulgação

A Hyundai iniciou a operação da primeira frota de caminhões pesados movidos a hidrogênio da América do Sul. O projeto acontece no Uruguai, com oito unidades do XCIENT Fuel Cell destinadas à logística de madeira, dentro de um modelo que vai além dos veículos e inclui produção local de hidrogênio verde e infraestrutura própria de abastecimento.

Além da Hyundai estrear sua tecnologia na região, o caso chama atenção por seguir um formato cada vez mais recorrente fora da Ásia e da Europa: um ecossistema fechado, em que geração de energia, abastecimento e uso final estão integrados desde o início.

Um projeto que nasce completo

Os caminhões fazem parte do Projeto Kahirós, liderado por um consórcio local com empresas de energia, logística e a distribuidora da Hyundai no país. O plano inclui a construção de uma planta de eletrólise para produção de hidrogênio verde, abastecida por um parque solar de 4,8 MW, com capacidade estimada de 77 toneladas de H por ano.

Com investimento de cerca de US$ 40 milhões, financiado pelo Grupo Santander e com apoio da IFC (Banco Mundial) e de um fundo da ONU, o projeto prevê operação contínua ao longo da próxima década. A expectativa é que seis caminhões atuem diretamente na operação, somando quase 1 milhão de quilômetros rodados por ano, enquanto duas unidades adicionais ficam como reserva e suporte a expansão.

Na prática, trata-se de um modelo verticalizado: o hidrogênio é produzido no mesmo ambiente em que será consumido, reduzindo custos logísticos e evitando um dos principais gargalos da tecnologia.

Foto: Hyundai - Divulgação

Aplicação específica, não mercado aberto

É justamente esse ponto que ajuda a entender o estágio atual do hidrogênio no transporte pesado. Diferentemente dos caminhões elétricos a bateria, que avançam em modelos mais abertos e distribuídos, as soluções com célula de combustível ainda dependem de projetos estruturados e com demanda previsível.

No caso uruguaio, a escolha pela logística de madeira não é casual. Trata-se de uma operação com rotas definidas, alto volume e baixa variabilidade, o que facilita o dimensionamento da infraestrutura e o controle de custos.

Isso não significa que a tecnologia esteja distante da aplicação real, pelo contrário. O projeto mostra que o hidrogênio já funciona em condições operacionais concretas. Mas também reforça que sua viabilidade, por enquanto, está ligada a contextos muito específicos.

O que entrega o XCIENT Fuel Cell

O caminhão utilizado no projeto é o Hyundai XCIENT Fuel Cell, modelo já em operação na Europa e na América do Norte. O conjunto combina duas pilhas de célula de combustível que entregam potência equivalente a 245 cv, alimentando um motor elétrico de 469 cv e 2.237 Nm de torque.

O armazenamento é feito em dez tanques, com capacidade total de 68 kg de hidrogênio, apoiados por uma bateria de 72 kWh. Em condições ideais, a autonomia pode chegar a até 720 quilômetros, com reabastecimento rápido em comparação a caminhões elétricos a bateria.

Voltado para operações pesadas, o modelo é um cavalo mecânico Classe 8, com capacidade para até 37,2 toneladas de peso bruto combinado.

Experiência global, mas ainda sem escala

A Hyundai já acumula experiência com o XCIENT Fuel Cell em outros mercados. Na Europa, a frota supera 20 milhões de quilômetros rodados desde 2020, enquanto na América do Norte os caminhões já passaram de 1,6 milhão de quilômetros desde 2023.

Os números mostram que a tecnologia está validada do ponto de vista técnico e operacional. Ainda assim, a expansão segue limitada por fatores estruturais, principalmente o custo do hidrogênio e a necessidade de infraestrutura dedicada.

O projeto da Hyundai mostra que a tecnologia de hidrogênio pode funcionar quando há integração entre produção, abastecimento e uso. Fora desse modelo, no entanto, o desafio continua sendo transformar iniciativas pontuais em um mercado mais amplo.