31/05/2026 10h34
Foto: Divulgação
A Associação Internacional do Transporte Aéreo (IATA) afirmou que o setor aéreo da América Latina e Caribe vive uma transformação significativa, impulsionada por consolidações, reestruturações financeiras e expansão da conectividade internacional. Apesar do cenário positivo para a região, a entidade alerta que o Brasil ainda enfrenta obstáculos importantes relacionados a custos operacionais, infraestrutura, judicialização e estagnação nos voos per capita.
O vice-presidente regional da associação para as Américas, Peter Cerda, afirmou que as companhias aéreas latino-americanas estão hoje mais estruturadas e competitivas do que há uma década.
“O cenário das companhias aéreas na América Latina e Caribe mudou drasticamente”, afirmou Cerda. Segundo ele, após processos de recuperação judicial via Chapter 11 e movimentos de consolidação, as empresas da região passaram a competir em escala global.
De acordo com a IATA, as companhias aéreas latino-americanas registraram crescimento de 8,6% no tráfego aéreo em 2025 na comparação com 2024. A associação destaca que o avanço é visível nos principais grupos da região e segue sendo impulsionado por novas fusões e pela entrada de novas empresas no mercado.
Entre os exemplos citados estão a expansão do Abra Group e a planejada fusão entre Viva e Volaris no México. Empresas mais recentes, como JetSMART e AraJet, também foram mencionadas pela entidade como sinais de confiança no potencial do mercado latino-americano.
A IATA destacou ainda o aumento do interesse de companhias internacionais pela região. Segundo Cerda, empresas europeias e do Oriente Médio estão ampliando operações e adicionando novos destinos na América Latina, transformando cidades como São Paulo, Bogotá e Cidade do Panamá em importantes pontos de entrada internacionais.
O executivo também citou a expansão de empresas canadenses, como WestJet, Air Transat e Air Canada, que passaram a ampliar voos para a América Central e América do Sul, incluindo Brasil, Chile e Peru.
Além do transporte de passageiros, a IATA afirmou que o segmento de cargas também vem registrando crescimento. Um dos exemplos citados pela entidade é a exportação de flores produzidas na região, que depende fortemente do modal aéreo.
Segundo Cerda, políticas econômicas mais liberalizantes adotadas em países como Argentina, Bolívia, Chile, Equador, El Salvador e Guiana contribuíram para fortalecer a competitividade do setor aéreo regional.
Entre 2014 e 2024, as tarifas aéreas na região caíram 47%, enquanto a conectividade aumentou 18% e a oferta de assentos, medida em assentos-quilômetros oferecidos (ASK), avançou 38%, segundo dados da associação.
Brasil enfrenta desafios estruturais
Apesar das perspectivas positivas, a IATA apontou o Brasil como um exemplo de mercado com grande potencial, mas ainda limitado por custos elevados e entraves regulatórios.
Segundo a entidade, o mercado doméstico brasileiro superou 100 milhões de passageiros em 2025, enquanto o país recebeu cerca de 9 milhões de turistas internacionais. Ainda assim, a associação considera o número baixo diante do potencial brasileiro e da dimensão territorial do país. Peter Cerda destacou que aproximadamente 60% desses turistas internacionais eram argentinos, evidenciando a forte dependência regional do fluxo turístico estrangeiro.
A IATA comparou o desempenho brasileiro ao da Espanha, que recebeu 92 milhões de visitantes internacionais em 2025. Segundo Cerda, apesar de o Brasil possuir dimensões territoriais semelhantes às da União Europeia, o volume de turistas estrangeiros ainda representa “uma gota no oceano”.
A associação também afirmou que, entre 2014 e 2024, diversos países da América Latina praticamente dobraram o número de viagens aéreas per capita, enquanto no Brasil esse indicador permaneceu praticamente estagnado no período.
A IATA também chamou atenção para os custos operacionais da aviação brasileira. De acordo com Cerda, o modelo de precificação do combustível de aviação encarece artificialmente um produto produzido localmente. O executivo também criticou a tributação sobre o setor e as tarifas de controle de tráfego aéreo, classificadas pela entidade como as mais altas da região.
Outro ponto de preocupação citado pela associação é a proposta de criação de um IVA de 26,5% sobre passagens aéreas a partir de 2028 com a Reforma Tributária. Segundo estimativas da IATA, a medida poderia provocar uma redução de até 30% na demanda por transporte aéreo no Brasil.
A judicialização também foi destacada como um problema relevante. Segundo a entidade, o Brasil registra aproximadamente uma ação judicial para cada 200 passageiros, enquanto nos Estados Unidos a proporção é de uma ação para cada 1,25 milhão de passageiros.
Infraestrutura preocupa setor
A IATA afirmou ainda que cerca de metade dos aeroportos da América Latina e Caribe enfrenta níveis elevados de congestionamento. Para Cerda, apesar da alta demanda por viagens aéreas, a situação também revela falhas de planejamento em infraestrutura aeroportuária.
O executivo citou os aeroportos de Santiago, Lima, Guarulhos e Congonhas como exemplos de terminais que sofrem com rápida saturação de capacidade.
Segundo a entidade, além da ampliação dos grandes hubs, países como Chile, Colômbia e Peru também precisam desenvolver aeroportos secundários para aliviar a pressão sobre os principais terminais.
A associação também apontou potencial de crescimento para Caracas, na Venezuela, caso o país consiga avançar em estabilidade política e regulatória suficiente para atrair novamente operações internacionais.
Outro desafio global mencionado pela IATA envolve a cadeia de suprimentos da indústria aeronáutica. Empresas como a Volaris, por exemplo, seguem enfrentando problemas relacionados à indisponibilidade de aeronaves, com dezenas de aviões em solo.
A produção de combustível sustentável de aviação (SAF) também aparece como uma oportunidade estratégica para a América Latina. Segundo Cerda, a região possui grande disponibilidade de matéria-prima e poderia se tornar uma liderança global no setor caso haja políticas públicas favoráveis e investimentos adequados.
“A América Latina e o Caribe agora são um destino global”, concluiu Cerda. “Hoje, normalmente é necessário apenas uma conexão para acessar qualquer parte do mundo.”