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Gestão

Hidrelétricas usam só 42% da sua capacidade no Brasil

Estudo aponta redução da geração hidrelétrica devido a maior participação de fontes eólica, solar e térmica no sistema elétrico

28/05/2026 08h21

Foto: Divulgação

As hidrelétricas brasileiras usaram, em média, 42% da sua capacidade instalada em 2025, o segundo menor fator de utilização desde 2010, segundo estudo da consultoria Volt Robotics. O indicador mostra o quanto da capacidade instalada efetivamente se transforma em geração de energia. O estudo aponta uma mudança no sistema elétrico brasileiro: embora estejam produzindo menos do que a sua capacidade instalada, as hidrelétricas seguem estratégicas por garantirem “flexibilidade, confiabilidade e resposta rápida para equilibrar o sistema nos horários em que há desencontro entre oferta e demanda”, cenário que ocorre diariamente no sistema elétrico brasileiro.

Até os primeiros anos deste século, as hidrelétricas eram responsáveis por mais de 90% da energia produzida no Brasil. Isso ocorreu durante décadas, quando o sistema elétrico era baseado em grandes reservatórios, a geração hídrica abundante e o País apresentava um consumo menor do que o atual.

A diminuição da geração das hidrelétricas, segundo o estudo, ocorreu por vários motivos: a redução da vazão nas principais bacias hidrográficas do País, a expansão da geração solar distribuída – aquela que inclui pequenos sistemas de geração nos telhados -, o aumento da participação de fontes como solar, eólica e térmica.

O estudo mostra que, entre 2010 e 2025, a relação entre a produção de energia e a capacidade instalada das hidrelétricas caiu, em média, 1,2% ao ano. Durante a crise hídrica de 2021 que reduziu a capacidade de armazenamento dos principais reservatórios, o fator de utilização chegou a 39%, sendo o menor depois de 2010. Somente para o leitor ter ideia, o fator de utilização era de 60% no início da década de 2010.

Segundo o estudo, as mudanças deste cenário ocorreram com o avanço da geração descentralizada, principalmente da solar distribuída, que reduziu a demanda por energia hidrelétrica durante o dia e aumentou a necessidade de resposta rápida das usinas no fim da tarde. Depois disso, o levantamento cita que as hidrelétricas passaram a operar de forma mais flexível, ligando e desligando com mais frequência para equilibrar o sistema.

De acordo com a Volt Robotics, as hidrelétricas continuam estratégicas para o sistema elétrico porque conseguem produzir mais energia justamente nos horários em que o preço da energia é mais elevado no horário de pico do consumo entre as 18h e 21h. O estudo destaca que as térmicas operam de forma mais constante, enquanto a geração solar concentra produção nas horas em que a abundância de energia derruba os preços e a geração eólica reduz a produção pela manhã devido ao regime dos ventos.

Com relação às hidrelétricas, o estudo cita que o valor destas usinas não estão somente nos megawhat-hora (MWh) gerados, mas no momento da entrega, na forma e na velocidade de reação à demanda. “Antes era volume. Agora é timing, uma nova lógica que o setor ainda não absorveu plenamente”, diz o levantamento.

As hidrelétricas estão produzindo cada vez menos, mas passaram a prestar um serviço mais valioso, de acordo com o estudo. “Essas usinas deveriam ganhar pela agilidade e flexibilidade, mas são remuneradas apenas pelo volume de energia produzido, o que evidencia uma falha na arquitetura do mercado”, aponta o levantamento.

As usinas hidrelétricas estão entregando energia no horário de pico do consumo, quando a mesma é mais cara. Por causa disso, o estudo cita que “o problema é que o setor elétrico ainda remunera boa parte dessa realidade horária como se o valor da hidrelétrica estivesse concentrado apenas no volume de energia entregue”. E acrescenta: “O Brasil entrou em uma fase em que a operação real das hidrelétricas está exigindo mais do que os modelos simplificados conseguem enxergar. Talvez esse seja o ponto mais incômodo — e mais importante — desta discussão”.

Redução das vazões das bacias hidrográfica

Nos últimos anos, também ocorreu a redução das vazões nas principais bacias hidrográficas do País. Em 2025, as vazões ficaram em 63% da média histórica na Bacia do Paranaíba, 58% na Bacia do Grande, 41% na Bacia do São Francisco e 55% na Bacia do Tocantins. “O caso do São Francisco é especialmente crítico. As bacias do Paranaíba, Grande e Tocantins também acendem alerta”, diz o estudo.

Não foi somente o clima que contribuiu para menos água nestas bacias hidrográficas. Ocorreu um aumento da competição pelo uso da água, principalmente por causa da irrigação. O estudo cita que o consumo de energia por consumidores irrigantes chegou a 444 MW médios em 2025, volume 68,2% superior ao registrado em 2005.

E, por último, a Volt Robotics destaca que a hidrelétrica binacional de Itaipu passou a destinar mais energia ao Paraguai devido ao crescimento do consumo do país vizinho, impulsionado pela industrialização e pela atração de data centers. Em 2010, o Paraguai consumia cerca de 9% da energia de Itaipu. Em 2025, o percentual chegou a 36%.

Fonte: Movimento Econômico